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terça-feira, 20 de julho de 2010

A Ética Cristã, o Moralismo e o Amor


Por Pablo Ribeiro

Ao sugerir que se falasse sobre ética e vida cristã nós, jovens, pensamos a priori em uma conotação onde se colocasse num paralelo a ética e a moral, avaliando aquilo que tange a vida do cristão, definindo-o como tal e como emergem questões referentes à coerência entre discurso e ação. Quantos cristãos, especialmente nós, protestantes, já foram cobrados por condutas que tornaram-se caricaturas do crente, em virtude de um discurso simplista da moral que elenca os perfis dos “verdadeiros cristãos”? Eis um lugar onde nos deparamos com um limiar que distingue a moral do moralismo, afinal, a moral diz respeito à uma conduta essencialmente própria do indivíduo, enquanto o moralismo irá tratar da conduta do outro. A relação entre moral e ética, já deu pano pra manga, mas como se dá esta dimensão quando a moral é substituída pelo moralismo?

A ética parte de um pressuposto maior, englobando a sociedade de forma totalitária. Uma conduta pautada na ética deve ser boa para a sociedade em geral e não para alguém especificamente. Podemos citar, assim, vários dilemas onde se contrapõem moral e ética, como, por exemplo, um pai que presencia um crime cometido pelo seu filho. Este pai tem o compromisso ético de zelar pelo bem estar social, cumprindo com normas estabelecidas que o conduziriam a uma ação onde precisaria denunciar seu filho. No entanto sua moral, que é revestida por uma sustentação lógica e coerente, lhe diz que como pai, ele tem a obrigação de proteger o seu filho. Os dilemas éticos, grandes ou pequenos, são hoje os principais responsáveis pelos cristãos se tornarem cada vez mais moralistas. Aliás, não os dilemas, mas uma certa dificuldade em lidar com eles, o que acaba resultando em um certo radicalismo que tende a uma demarcação de território para determinados grupos cristãos, acaba por ocorrer uma padronização do comportamento daquele que deseja se filiar e, conseqüentemente, acaba implicando numa vigilância por parte de lideranças que acabam por cair na prática do dito moralismo.

Mas e a nossa comunidade? Onde entra nesta história? Jesus Cristo acolheu àqueles a quem todos julgavam à margem da moral, desde a prostituta ao chefe dos cobradores de impostos, bem como esteve neste mesmo lugar ao assumir, tantas vezes, atitudes de subversão. Sendo assim, em primeira instância, a Ética Cristã já se contrapõe ao moralismo. Talvez esta consciência seja a maior das virtudes de nossa comunidade, que possui tantas outras. No entanto, é seguro que sejamos zelosos para que o moralismo não se instale em nossas mentes e corações de forma velada e, assim, julguemos ao irmão quando este precisa acima de tudo do nosso amor. Afinal, pressuponho que, para Cristo, por tantas evidências, a fundamentação da ética, que constitui um bem estar para todas as instâncias da sociedade, se baseia exclusivamente no amor.

Pastoral do mês de junho

domingo, 16 de maio de 2010

HOJE EM DIA A “MINHA ORAÇÃO É BEM CURTA PRO SANTO NÃO ENTEDIAR (...)”


Por Rachel Vidal

Quando eu era criança “dia de santo importante” era o fim da picada! Na televisão só passava aquela multidão carregando o dito cujo... O dia inteiro era aquela barulhada de foguetes somada à frenética latição do Bidu, sem falar na gritaria que todo mundo lá de casa arrumava exigindo silêncio do pobre Basset. Recordo-me que o sentimento de tédio e a vontade de berrar “que povo bobo!” acometiam-me, afinal, eu havia aprendido na Classe Dominical da Segundona que não devemos adorar a ídolos. E isso para mim era uma lei infringível, uma regra básica de Deus. “Como as pessoas grandes poderiam desconhecer isso e arrumar toda aquela papagaiada mostrada pela televisão? Deus não vai ficar bravo com esse pessoal não?” (pensamentos assim caracterizam a minha irritação).

Hoje penso um pouco diferente... Você já refletiu sobre o trabalho que dá ser pelo menos “simpatizante” de algum santo? Primeiramente, o indivíduo tem que se inteirar da história do santo, saber se ele é padroeiro de causas específicas ou profissões, se é invocado contra doenças específicas ou catástrofes, etc. Depois de adquirir a imagem (seja uma fotografia, um desenho ou uma estatueta), velas são acesas e orações decoradas, periodicamente expressas como manifestação de fé, de honra e respeito. E é claro que tem a longa caminhada, faça chuva ou faça sol, no dia de comemoração do santo (procissão), com direito a foguetório e muito mais.

E agora cá estou eu refletindo sobre as minhas manifestações de fé ao longo da estradinha da vida: elas são frequentes? Exigem algum sacrifício? Jejum? Retiro espiritual? Algum dia eu me dei ao trabalho de decorar alguma oração ou salmo bíblico? Quantas vezes na vida eu ajoelhei para orar? Quantas vezes já fui dormir tendo passado o dia todo sem fazer nem meia oração? Por que essa minha “cômoda sazonalidade” é mais bem vista por Deus que todo o metódico processo realizado por um devoto a um santo? Quem foi que disse que Deus não dá ouvidos às rezas feitas aos santos, que Ele não se manifesta na vida das pessoas por elas simplesmente terem encontrado “intermediários” em suas conversas com Ele, em suas manifestações de aflições, desejos e frustrações? Isto sim é estranho: achar que detemos a verdade sendo que as nossas crenças podem estar cheinhas de equívocos, pois nada mais são do que um mero ponto de vista, uma possibilidade de interpretação bíblica.

Muitas pessoas dizem ser ecumênicas sem nem mesmo saber o significado correto deste termo. A frase “eu sou ecumênico, porque respeito outras religiões” é bem comum por aí. Porém, ecumenismo é só isso? Respeito ao próximo não é uma obrigação de qualquer cristão?

Ecumenismo é bem mais que respeito. Significa respeitar a outra pessoa em sua diferente expressão de fé, crer que Deus nos fez um em Jesus Cristo, entender que devemos buscar nos ensinamentos bíblicos o fortalecimento para nossas ações conjuntas e não motivos de discórdia. Para que o ecumenismo esteja em nós é preciso praticá-lo, é necessário amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. O ecumenismo nos ensina que é possível sermos um, mesmo sendo diferentes. É claro que existem diferenças significativas, mas que podem ser superadas pelo amor que nos une.

Desejo reflexões a todos nós, cristãos. Que possamos rever o modo como internalizamos as diferenças existentes entre católicos romanos, luteranos, anglicanos, presbiterianos, ortodoxos e outras denominações irmãs. Sejam as nossas orações decoradas, lidas ou espontâneas, que elas tenham sempre como foco a intimidade com Deus, pois Ele é a única fonte de segurança de qualquer indivíduo, dada a nata insegurança da vida. Que nós, cristãos, saibamos manifestar ações de amor, respeito e comunhão, não apenas durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (SOUC), mas em nossas práticas pessoais diárias.

Fundamentada no discernimento de que Deus conhece todas as nossas intenções, planos e desejos, que apenas Ele age na vida de todos nós, que Ele habita em nós, sou sim admiradora do breve e doce recado transmitido pelo verso: “Minha oração é bem curta pro santo não entediar” (Ana Carolina, Mombaça e Antônio Villeroy).
Pastoral de maio

terça-feira, 27 de abril de 2010

Deus não se cala no deserto

Por Vitor Gomes Batista

O deserto é um cenário marcante na história do povo de Deus. Ao sair do cativeiro no Egito, os israelitas, liderados por Moisés, vagaram durante 40 anos em busca da terra prometida. Eles poderiam ter percorrido o trajeto, mesmo a pé, em alguns dias. Se considerarmos o exemplo dos israelitas, percebemos que eles se sentiam perdidos, pois ficavam amargurados com a demora e dificuldades, alguns até cogitavam em voltar para a terra da escravidão, embora estivessem sendo guiados por Deus. Diante desse fato, sempre tentamos entender quais motivos teria o Senhor (mesmo sendo uma ousadia nossa) para permitir que seu povo ficasse tanto tempo à espera da promessa.

Mesmo diante de todo o clamor e murmuração daquele povo, Deus nunca desamparou seus escolhidos. Quando de dia o sol era escaldante, uma nuvem oferecia sombra, quando à noite o frio era intenso, uma coluna de fogo iluminava e aquecia, quando havia fome, desciam codornizes e o maná do céu. Dessa forma, Ele cuidava de seu povo.

A murmuração dos israelitas começou logo após a travessia do mar vermelho, pois estavam com sede e o único lugar que havia água, era um tipo de oásis, chamado Mara, de águas amargas. O povo reclamou, Moisés intercedeu perante o Criador, e as águas se tornaram doces. O mais interessante neste episódio é o fato de, recentemente, um documentário produzido pelo Discovery Chanel apontar que, na verdade, as águas de Mara eram também medicinais, pois curavam algumas verminoses contraídas pelos hebreus ao tomar a água barrenta do Nilo. Mais uma vez é a demonstração de Deus tratando de seus filhos.

Enquanto o povo murmurava, não percebia o quanto Deus agia e tratava de suas mazelas e de suas necessidades físicas. O deserto está tão presente na vida de cada cristão, sendo maior exemplo o de Jesus. Depois de ser batizado, ele foi conduzido ao deserto, pelo Espírito, e lá foi tentado durante 40 dias por satanás. Deus permitiu a tentação do Filho do Homem. A Bíblia diz que Deus não tenta ninguém, mas permite acontecer. Na oração do Pai Nosso, Cristo nos ensina a rogarmos para não cairmos em tentação.

Embora na vida espiritual do crente o deserto seja um período muito difícil, ele deve ser encarado como uma experiência positiva no relacionamento com Deus. Quando atravessamos o deserto, seja por motivos de luto, de doença na família, de desemprego, de dificuldades financeiras, de depressão, de injustiça, de desânimo e de tantos outros, parece que Deus está calado diante dos nossos sofrimentos. Não sabemos o tempo de duração, nossa ansiedade intrínseca à característica humana quer ver tudo acabado, tudo resolvido. Algumas vezes, temos vontade de desistir e murmuramos igual ao povo de Israel. Nesse momento, em que a solidão de cada um bate à porta, com certeza Ele está nos curando, nos fortalecendo e nos tornando íntimos da Sua presença. Basta ter fé e entender que, após todas as passagens pelos desertos da vida, as dificuldades não irão acabar, mas com certeza estaremos mais fortes para enfrentá-las, porque assim é a vontade de Deus. Enfim, o deserto é um momento de tratamento espiritual e maior intimidade com o Criador.

Pastoral do mês de abril


terça-feira, 16 de março de 2010

Mulher

MULHER
Por Michelle Maciel

Obra prima sonhada por Deus e especial,
Inspirada com a essência da meiguice e forte como leão,
Que trabalha muitas vezes nos bastidores e trata o próximo como seu igual,
Sem medo da indiferença ou da ingratidão.

Ser de extrema fé como a de Sarah
Que é firme como nas orações de Ana,
Pois tem certeza que o Senhor nunca desampara,
Aqueles por quem ora e ama.

Alma de fibra e encantadora,
Assemelhando-se muitas vezes ao coração grato como de Maria,
Sabendo ser submissa a Deus e ajudadora,
E que sabe tirar da tristeza até mesmo o som da alegria.

Virtuosas por natureza
Que com sabedoria têm lutado,
Munidas de força e delicadeza
Aliadas ao amor de Deus, o mundo têm transformado.
Pastoral do mês de março

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Novas lentes para a vaidade


Por Pablo F. Bastos Ribeiro

Para muitos a vaidade significa cuidado com a aparência ou uma visão superlativa de si mesmo, e de fato não estão equivocados aqueles que pensam assim. Porém, a primeira definição que encontramos em alguns dicionários, como o Houaiss, por exemplo, não conceitua o termo deste mesmo modo. A primeira definição para vaidade exposta em Houaiss é “qualidade do que é vão, vazio, firmado sobre aparência ilusória”. Com estas novas lentes gostaria de sugerir reflexões sobre algumas questões.

A princípio, proponho pensar em nós mesmos sem sermos vaidosos para não nos iludirmos com nossas formas de compensação: quão frequentemente somos tomados por sentimentos que não têm qualquer fundamentação coerente e, a partir deles, agimos de forma enérgica por demais? Recordemos quantas vezes agimos precipitadamente em nossos meios (casa, trabalho, faculdade, igreja) por nos basearmos em situações ou fatos que estão além do nosso campo de entendimento - ideias muitas vezes apresentadas a nós por terceiros que desejam apenas fomentar apoio, mas que são compreendidas por nós de modo distorcido. Este é um momento em que nos firmamos em argumentos vazios de sentido para flutuarmos sobre uma plataforma de vaidade que nos propicia a sensação do poder de sermos detentores da razão.

E quanto a nossa fé? Está escrito “vou castigar a maldade do mundo inteiro, os crimes dos ímpios; porei um fim ao orgulho dos soberbos e rebaixarei a vaidade dos prepotentes”(Isaías 13:11). Este é um versículo que nos deixa numa situação bastante delicada, pois quantas vezes somos prepotentes, orgulhosos e, inclusive, maus em nome de nossa fé? Quantos de nós acabamos por subjugar pessoas, normalmente aquelas que não são adeptas às mesmas crenças que compartilhamos, às nossas “leis”? Sim, isto é vaidade não por uma avaliação lisonjeira de nós mesmos, mas pelo esvaziamento de sentido, pois não nos cabe submeter ninguém aos nossos dogmas e crenças. Nossa fé deve ser pura e transparente para nós mesmos, devemos ser exemplo e não inquisidores. Como diz um amigo meu: “a palavra convence, mas o exemplo arrasta”. Penso ser deste modo que devemos nos colocar se quisermos convencer alguém de algo. Antes de tudo, devemos ser o exemplo vivo do que acreditamos e para isso temos que preencher a nossa alma de fundamentos sólidos, pois é assim que conseguiremos, também, enxergar o outro além do que nos aparenta.

Passemos, então, para a questão maior que é a unidade da Igreja. Para nos fortalecermos como comunidade de fé, precisamos nos preencher com ideais, com princípios e acima de tudo é necessário uma fundamentação para estes. Quando se trata do coletivo não podemos nos ater às nossas particularidades e crenças, devemos buscar nos irmãos os pontos de interseção entre nós e a partir deles solidificarmos nossas relações internas. Deste modo, crescermos como cristãos a partir de reflexões e discussões respeitosas e enriquecedoras. Não devemos nos deixar levar pelos sinais mais nítidos da vaidade, aqueles que mais se aproximam do senso comum, que é a supervalorização de nós mesmos, pois neles sentimo-nos fortes demais e, assim, perdemos a sensibilidade necessária para saber quando precisamos nos fortalecer. Cumpre atentarmos para o fato de serem, entretanto, muitas as fraquezas do homem, mas é no momento em que nos sentimos extremamente fortes que cometemos os nossos maiores erros.
Pastoral de janeiro /2010

terça-feira, 24 de novembro de 2009

TU ÉS A VIDA!



Por Hênio Santos de Almeida
Teólogo e aspirante a pastor

A maior parte das pessoas que me solicitam ajuda desconhece que seu verdadeiro problema consiste, basicamente, em que aprenderam a “desviver”. É incrível como passamos pelo tempo sem desfrutar nossa realidade, culpando aos demais pelas nossas amarguras e derrotas, atribuindo-nos todos os méritos do êxito que tanto aprendemos a desejar, e a sentir que não merecemos ser felizes. Outros soluçam todo o tempo, discutem eternamente, vão criando montanhas de problemas, ou, simplesmente, cometem a fatuidade de crer que a meta é fazer o que lhes “der na telha”. Enfim, ao longo de sua história o ser humano aprendeu emocionalmente a carregar com os erros alheios, as culpas alheias, os medos alheios, e, por sua vez, a transmitir aos que nos rodeiam as mesmas culpas, os mesmo medos que nos aterraram e paralisaram.
Sem nos darmos conta, por suposto, praticamente, desde o início aprendemos a sermos espectadores de nossa própria vida a qual contemplamos como algo fora e independente de nós. Esta é então a primeira contradição com a qual nos presenteamos de geração em geração: confundir a realidade com nossa própria, única e irrepetível vida.

Se você não concorda, trate de definir com alguém, inclusive com você mesmo, “o que é a vida”. Mas não se assuste quando de maneira jubilosa ou dessaborosa, como se fosse algo que pertence ao mundo externo. A vida é: “...um desastre”; “...um milagre”; “...uma felicidade”; “...uma desgraça”; “...um mistério”; “...um combate”; “...um lixo”, etc.

As respostas acima dão a impressão que eu estou aqui e a vida está lá, totalmente fora de mim, e que ela é, por sua vez, a responsável por tudo o que me acontece. Na realidade, se a vida é tudo o que existe fora e independente de mim, devo me perguntar: “onde fui parar?”. Simplesmente começamos a levantar um muro que não apenas nos isola, senão que também nos esmaga!
Então, a vida... O quê é?

Sim! Como diria Rousseau: “Sai de tua infância, amigo, desperta!”. E a esse despertar ao qual conclamo você, é que compreenda que A VIDA É VOCÊ! Sim, você mesmo que lê estas palavras! A vida é você com todas as inesgotáveis possibilidades de criar, amar e crescer que brindam as infinitas interações entre a realidade e sua vida.

Quando você sabe que você é a vida, não tenta levantar paredes que lhe escondem ou falsamente lhe protegem da realidade, pois percebe que realmente está fugindo de você mesmo. Quando aprende que você é a vida, se fazem inecessárias as corridas que desesperadamente empreende contra o relógio para alcançar o êxito, como a via de ser aceito porque conseguiu ser alguém. Ao se dar conta de que você é a vida, chega à sua essência de que realmente você vale pelo que é e não pelo que tem. Quando vivencia de todo o coração que a vida é você, o passado deixa de ser o fantasma que condiciona e agonia seu futuro.

Quando desfrutar de você como a vida desaparecerá seu medo da aproximação e da intimidade com outros, não terá do que esconder-se, sua transparência terminará com a ansiedade, que é a linguagem de seu corpo que não consegue silenciar.

Quando você reconhecer-se como a vida será capaz de se dar conta de que pode decidir diante de sua liberdade livremente, que esta é (e você a assume) como via de transformá-la e transformar-se para desenvolver-se como ser humano onde se encerra o amor de Deus.

Quando for plena a convicção de que você é a vida, a culpa não lhe afogará por sentir-se imperfeito, poderá entender e sentir que pode equivocar-se.

O paraíso e o inferno estão em você. O ser humano veio para desfrutar de sua existência nesta Terra, tem o direito de amar-se, de viver em paz, de criar e contribuir ao desenvolvimento da própria existência humana.

Ao conhecer o verdadeiro significado do que você é, poderá então perguntar-se: O que sou de verdade?

A tendência é responder: sou advogada, professora, motorista asmático, empresário, gay, um gatão. Sem dar-se conta, você intercambeia suas atividades laborais, seus diagnósticos médicos ou simplesmente sua orientação sexual com quem você é.

Na realidade você mesmo não se conhece interiormente, porém sim externamente vivencia o reflexo em seu espelho: domina sua forma mais não seu conteúdo. Proponho-lhe descobrir-se para:

1º. Fazer as pazes contigo mesmo. Assumir a realidade. Decidir livremente seu caminho. Ser o dono de sua auto-estima e controle. Transformar-se para transformar.

2º. Aprender a conhecer-se e conhecer aos demais. Assumir a diferença. Melhorar a comunicação e as relações interpessoais.

3º. Desfrutar sua vida. Investir menos tempo em renegar e criticar. Dedicar seu tempo a construir e amar. Encontrar um maior número de alternativas e soluções.

Assim procedendo existirão então infinitas motivações para ajudar aos demais.

“[...] Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”
(Evangelho segundo João: 10,10b)
Pastoral do mês de novembro

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O Filho do Oleiro



Por Hermann A. Rodrigues

“Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que colocaste em seus devidos lugares, que é o homem para que te lembres dele e o filho do homem para que com ele te importes?
Eu te louvarei porque de um modo tão admirável e maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, eu o sei muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e esmeradamente tecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram a minha substância ainda informe e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles. Ó Senhor, meu Senhor, quão majestoso é o teu nome em toda a terra!”
Sl 8:3,4,9; 139:14,15,16

Um dia fui pó da terra e o vento revirava minha vida ao seu prazer.
Jogava-me para cima, para os lados, rodopiava-me e eu nada podia fazer.
Fui lançado tempestivamente, por aquele que tentava me consumir, no mais profundo abismo.
Um dia o Oleiro sondava sua casa e percebeu que sua obra, perfeita e laboriosa, não estava completa.
Faltava um vaso!
Então, o Oleiro virou-se e me viu ali; pó da terra lançado à sorte.
Tomou-me e me misturou à água do seu suor.
Virei barro!
Mansamente o Oleiro correu sobre mim suas suaves mãos e me deu forma e, encantado, pôs-me em destaque em sua casa.
Cuidava de mim continuamente.
Um dia eis que caí e me perdi do Oleiro.
Entristecido Ele partiu e fiquei só.
Quebrei-me e já não tinha o Oleiro para me consertar.
O vento cruel tomou-me de volta em seus rodopios.
Agora o vento era mais forte e não carregava o que outrora era pó.
Carregava os pedaços de um vaso muito amado pelo belo Oleiro.
Muito tempo se passou e o vento tornou a jogar-me num profundo abismo.
O Oleiro me procurou, mas não encontrou.
Ele não me via vaso e sim cacos.
Mas Ele não queria cacos...
Sobreveio que num determinado tempo o Filho do Oleiro, cansado de ver a tristeza do Pai por causa de um vaso amado, saiu a me procurar.
O Filho do Oleiro veio, me encontrou e me resgatou do meu fim.
O Filho do Oleiro percebeu que era necessário limpar, polir e colar os cacos, a fim de reconciliar o vaso com o Oleiro.
Era tarefa árdua!
Tão difícil que exigiu a vida do Filho do Oleiro.
O vaso, ainda imperfeito, lastimou-se!
Morrera quem lhe daria vida e lhe devolveria ao Pai.
Mas o vaso estava enganado.
O Filho do Oleiro não estava morto e sim vivo, cheio de glória e majestade!
E o Filho do Oleiro voltou e pegou o vaso. Limpou-me, poliu-me, colou-me os cacos e me fez novo vaso.
Resgatou minha vida.
Encheu-me de bênçãos.
Transbordou-me com a sua graça.
Deu-me vida nova.
Aplainou minhas arestas.
Moldou minha nova forma.
Pintou-me.
Salvou-me da morte.
Reconciliou-me com o Pai, que de tão feliz, pois sempre quisera o vaso lindo que Ele mesmo fizera, deu-me ao Filho, que hoje é Senhor e Salvador da minha vida.

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé;
e isto não vem de vós, é dom de Deus.”
Ef 2: 4-8
Pastoral do mês de outubro

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A FÉ MOVE MONTANHAS


Por Ricardo Luiz de Bastos

A fé é algo essencial à vida de um cristão, pois é exatamente por ela que Deus nos guia de acordo com a vontade Dele. Ante a circunstâncias difíceis algumas pessoas afirmam: “Senhor, eu tenho fé, a mesma que me deste; sou seu servo e lhe obedeço; sei que jamais me desamparará”. Já outras, sem esperanças, questionam-se: “O que fiz para que o Senhor desamparasse-me? Não sou temente ao Senhor?”. Porém, Deus responde a todos: “Eis que estou aqui, sempre presente, jamais os abandonareis”. Essa é a promessa Dele. Vamos acreditar nela. Se você tem fé, nada vai abalá-lo. Confie! Acredite! Seja paciente...

Em nossas vidas passamos por várias provações e momentos difíceis, mas jamais devemos desistir dos nossos propósitos, pois assim aprimoramos a fé. Cremos em Deus e mesmo assim teremos problemas? Sim, para que sejamos testemunhas do AMOR DELE. Por isso, convido-os a juntos buscarmos, sempre, de todo o coração, essa dádiva. Deus tudo pode, tudo, tudo, tudo, de acordo com as vontades e propósitos estabelecidos por Ele a cada um de nós. Sem a fé, expressada em orações, não somos capazes de expor nossos problemas ao PAI. Será a oração também fundamental?

Vejamos o que diz uma passagem em Marcos 11:24: “Por isso vos digo que todas as coisas que pedirdes, orando, crede receber, e tê-las-eis”. Através dela Jesus nos ensina que a fé é imprescindível para que possamos andar pelos caminhos justos a Ele. O versículo é claro como a água cristalina: se tivermos fé em Deus, e soubermos esperar com paciência no Senhor, colheremos importantes frutos; caso contrário, as respostas não virão. Assim, a fé é como uma ponte sem fim. Por ela passam certezas e provações com as quais temos a capacidade de lidar, através do apoio que nos é oferecido pelo Pai. Essa ponte nos leva até Deus, e Dele provém tal dádiva.

Ter fé é perseverar, persistir, jamais deixar de crer nas promessas divinas. É caminhar com Deus. É ter um encontro íntimo com o Pai. É ser firme como uma rocha, até nos momentos de atribulações. Ela nos ensina a sermos pacientes e esperançosos. A fé cura e salva vidas. Restaura e revigora, faz-nos chegar ao topo de nosso fervor. Falar de fé é sentir, enxergar, tocar o coração do próximo e, acima de tudo, saber que sem Deus não somos nada. Ter fé é acreditar na superação dos limites, ultrapassar barreiras e vencer, mas vencer sabendo que apenas Deus pode fazer por nós o que nós fizermos por Ele.

A fé não nasce de repente, é preciso buscá-la. Com o tempo ela cresce em nosso íntimo, assim como as árvores que dão bons frutos (quando esses são colhidos para o bem). É forte como o espírito, não se arranca e nem morre. A fé, enfim, pode mover montanhas e elas estão nas mãos de Deus. Isso não é maravilhoso?

Compreendo plenamente os propósitos de Deus. As mesmas mãos poderosas que movem montanhas podem salvar vidas, tirar-nos de tempestades, enchentes e correntezas. Às vezes, quando somos surpreendidos, enganamos a nós mesmos, e aí o inimaginável acontece... Acontece porque não estamos preparados para receber os nossos problemas, porém, Deus nos previne e nos alivia de sofrimentos piores. Nossa fé é posta à prova, para que possamos sentir o quanto Ele nos ama e como Ele nos ampara ante as dificuldades. Por isso precisamos ter fé no Pai. O Pai que ama e zela por nós; que cuida, ergue e edifica a fé. O PAI que protege seus filhos, liberta seu povo, nos tira do lodo e coloca-nos em terra firme.

Deus também nos confere uma segunda chance. Você acredita nessa possibilidade? Eu creio.
Creio que os pequenos se tornam gigantes e os fracos se tornam fortes e corajosos. Creio na fé, na ressurreição, na vida eterna e no que ela representa para Deus e seus servos. Creio porque devemos crer. Ora! Se nós temos um Deus que é Pai, Eterno e Amoroso, jamais devemos desistir de acreditar! O caminho certo é Deus, pois Dele veio Jesus, Seu Filho, Salvador e principalmente o Amigo, Aquele que é sempre bem-vindo em todos os momentos de nossas vidas.

Que juntos possamos sempre seguir os exemplos de fé em nossas vidas. Assim como o Pai concede a fé para seus servos, podemos agir de maneira que a preservemos dentro de nós e confiemos plenamente nos planos de Deus, pois o Senhor é fiel.

Para refletir: Deuteronômio 07:9
“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos.”
Pastoral do mês de setembro

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Experimentando o amor no colo do Pai

Por Vanessa Trotta

No momento mais difícil da vida, provei do verdadeiro amor de Deus. No dia 27 de dezembro de 2008, um acidente de carro tirou a vida da minha avó paterna e da minha madrinha. Ao ver minha família envolvida nessa tragédia, a primeira reação que tive foi a de clamar ao Senhor: “Pai, por favor, carregue-me no colo!”. Sentia-me tão desprotegida, tão confusa, sem saber para onde correr, pois um sentimento de profunda tristeza tomava conta de mim. Ao enfrentar tamanha dor, não conseguia entender porque a vida de cada um de nós, membros da família de meu pai, deveria seguir por aquele caminho de sofrimento. Foi quando me lembrei da frase guardada no meu coração: “nada pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Ele não nos deixa passar por algo que não podemos suportar.
Quando uma criança chora ou se machuca, por extinto a pegamos depressa no colo e começamos a consolá-la, almejando proporcionar a ela a sensação de proteção, como a que foi experimentada no útero materno. Então, a criança se acalma, abraça-nos, e retorna ao chão quando tem a certeza de que está segura. Naquele momento de perda e de imensa insegurança em minha vida, através da fé, pude voltar a ser como uma criança, pois sabia que no mesmo instante Deus me pegaria no colo e não me deixaria caminhar sozinha. Estando ali, sendo consolada no colo do Pai, comecei a interpretar a tristeza como parte da vida, enfrentada com a convicção de que não importa o que aconteça, sempre terei esse abrigo de amor quando precisar. Percebi que meu Pai sabia exatamente como eu me sentia, pois, por um momento, Ele também vivenciou a perda de seu filho amado.
Com o passar do tempo, queria compartilhar com meus pais, irmão, tios e primos o acalento encontrado no colo de Deus. Cheguei a pensar que eles não entenderiam, mas quem não estava entendendo era eu. Eles também haviam encontrado refúgio no Senhor, cada qual a seu modo, e até então eu não compreendia que Deus trata cada filho de forma única, repleto desse amor que de tão intenso chega a ser constrangedor. Só comecei a perceber isso porque via em cada amigo, em cada familiar e em cada irmão a expressão do amor divino figurado por meio de gestos, palavras de consolo, orações, telefonemas, olhos recheados de lágrimas, abraços apertados, coração contrito. Experimentei a aconchegante companhia do Espírito Santo manifestada em irmãos, principalmente nas horas de solidão. Assim, aprendi que o amor de Deus está dentro de cada um de nós, e quando estamos juntos, ele nos completa.
O amor de Deus se faz presente de várias formas em nossas vidas, porém, nas situações mais difíceis, ele transborda, sarando nossas almas. Prová-lo foi como render-me a um estado de graça misturado à dor de contemplar uma imensidão sem poder retribuí-la. A saudade permanecerá sempre e a dor vem sendo estancada no peito; o que nos mantém firmes é a manifestação do amor de Deus, que enviou-nos o seu filho, Jesus Cristo, e com Ele a esperança da vida eterna. Por isso somos constantemente gratos e também responsáveis por transmitir a todos os seus filhos esse amor revelado a nós.
Pastoral do mês de agosto

terça-feira, 25 de agosto de 2009

EVOLUÇÃO DE AMOR


Por Lucas Chamon
Estamos experimentando efetivamente a definição da evolução da humanidade. Todos os dias somos bombardeados com notícias de que um novo celular aqui ou um novo computador ali foram desenvolvidos com novas funções e novos aparatos cuja finalidade é facilitar nossas vidas. E realmente o fazem! Semana passada, foi apresentado ao mundo um robô enfermeiro com sensores em toda sua constituição que o permite desempenhar funções básicas no cuidado de um enfermo, com vistas ao pleno aprimoramento das qualidades. Outro dia vimos um robô que aprende a fazer cálculos. Enfim, são tantas novidades que eu me pergunto frequentemente: quem vai saber ligar a televisão daqui a dez anos?
De fato, aqui reside a ideia principal da capacidade evolutiva do ser humano: se por um lado o homem dispõe de possibilidades ilimitadas de criar conceitos, por outro lado, o próprio homem não se percebe tão acolhedor das novas idéias. No último século, a humanidade observou uma evolução, tanto do ponto de vista científico, quanto ideológico, como jamais havia sido observada. O tempo corre com aceleração exponencial para o mundo em detrimento de nossa capacidade de assimilação. Para se ter uma idéia, os cientistas têm trabalhado com teorias fundamentadas em um universo de onze dimensões, o que nos leva a um nível de abstração que nem eles próprios conseguem estabelecer.
Além disso, todas as evoluções são dadas de maneira sequencial, ou seja, é primordial que os paradigmas sejam derrubados um após o outro, e para isso é necessário que eles sejam percebidos. Os paradigmas, vulgo retrancus evolutae, estão estampados nos nossos questionamentos acerca das coisas, quando nos perguntamos por que isso ou aquilo tem que ser desse ou daquele modo.
Nós, como Igreja de Cristo (grande destruidor de paradigmas, diga-se de passagem), devemos, sobretudo, estar atentos. Primeiramente, devemos aprender a assimilar as boas mudanças que ocorrem em nosso meio. Devemos nos apegar aos velhos conceitos que em nada contribuem para a difusão do nome de Jesus para o mundo, ou que de nenhuma forma expressam a capacidade social da Igreja para com o próximo. Urge no nosso meio uma revolução que sabemos há muito tempo, necessária: uma revolução nos nossos corações convertida na expressão do amor que, mesmo que intimamente sentimos pelo próximo. Calvino iniciou essa revolução ao nos definir como seres unidos por um mesmo corpo em fraterno amor.
Não sejamos coniventes com o estabelecimento do desrespeito à vida. Pelo contrário, sejamos desenvolvedores de idéias como Cristo e revolucionários como o jovem Calvino, os quais se demonstraram durante toda luta inconformados perante as injustiças do mundo e que fizeram dos seus caminhos uma dispersão completa e definitiva do amor de Deus.
Pastoral do mês de julho

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

CONSCIÊNCIA MORAL


Por Hermann A. Rodrigues
Segundo o dicionário Aurélio, consciência é o atributo pelo qual o homem pode conhecer e julgar sua própria realidade, é o seu senso de responsabilidade, que está intimamente atrelado à sua capacidade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados. Moral, por sua vez, consiste no conjunto de regras de conduta ou hábitos julgados válidos, brio.

Percebe-se que o conceito de moral é passível a distorções, uma vez que um bandido pode considerar um hábito válido a conduta do crime. No entanto, a verdade é que não há outro sentido para moral senão o da conduta digna e justa para o bem individual e coletivo, e disso, até o bandido sabe. Assim sendo, consciência moral pode ser definida como senso de responsabilidade digno e justo de um indivíduo.

Para nós, cristãos, é muito claro o grau elevado de senso de responsabilidade digno e justo que Jesus possuía e que isso vinha de Deus, porque, como o próprio Cristo disse várias vezes, Ele fazia o que o Pai o ensinou. Mas, se um Pai ensina as mesmas coisas para os vários filhos, então por que não praticamos a consciência moral de Cristo, uma vez que somos filhos do mesmo Pai? Que consciência moral temos se não lutamos pela paz? Que consciência moral temos se vemos todos os dias nosso próximo sofrer com a fome, com a indiferença, com o abandono e não fazemos nada? Que consciência moral é essa que permite assistirmos calados todo tipo de violência contra nossas crianças? Que consciência moral temos se conhecemos Cristo, somos chamados de cristãos, mas não praticamos Cristo? Que consciência moral é essa que nos permite condutas repreensíveis?

Jovens, está em nossas mãos a habilidade para transformar o mundo. Quando éramos crianças ouvíamos que seríamos o futuro (bom) do país. Hoje, ouvimos e falamos esta mesma frase sobre as crianças de agora, sendo que nada ou muito pouco fizemos neste futuro. No entanto, vimos pessoas extraordinárias lutando e transformando o mundo durante nossa infância; mas, e as crianças de hoje, quais são as suas fontes de inspiração para o amanhã? E porque deixarmos para elas o que é dever nosso hoje? Não estaríamos protelando uma responsabilidade que é nossa!? Sejamos hoje para nossas crianças as pessoas admiráveis que outrora povoaram nossa realidade, pois assim estaremos também praticando nossa consciência moral.

Cristo era arrojado, dinâmico, moderno e valente. Além, é claro, de doce, misericordioso e compassivo. Se somos cristãos devemos assumir tais características. Jesus indignava-se diante das atrocidades de seu tempo e, com responsabilidade, reagia a tais problemas. E nós, não vamos fazer nada, sequer tomar posição frente à balbúrdia política e à barbárie social cotidianas? Ah! Esse é o problema. Tornou-se cotidiano ver crianças serem mortas impiedosamente; ver adolescentes serem vendidos para prostituição por quatro garrafas de cerveja; ver famílias inteiras passando fome debaixo dos viadutos ou em favelas sujas; ver a fé ser comercializada; ver homens, mulheres e crianças se prostituindo para não morrerem de fome; ver filhos espancando e matando os pais e pais fazendo o mesmo com os filhos; ver nossos educadores acuados; ver pessoas honestas serem ridicularizadas por esta virtude; ver estupros e assassinatos e toda sorte de atitudes desumanas.

Estamos nos acostumando com essas tragédias e isso não é bom! Não devemos e nem podemos nos acostumar. Isso não é normal. Conformar com essa loucura é entrar em estado de coma moral profundo. É ir para o lado oposto ao de Cristo. Não podemos nos conformar. Lembremo-nos de Paulo aos Romanos: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. (Rm 12:2.)

Como já disse: Cristo era moderno e arrojado. Não há mal em ser moderno, ter mente em renovação, desde que não percamos os valores que vêm do nosso berço: a honestidade, o respeito, a caridade, a solidariedade, o carinho, a verdade, a dignidade, a justiça e o amor. Com a renovação da nossa mente, preservação e prática de nossa consciência moral podemos fazer coisas infinitamente belas e, acreditem, podemos até transformar para o bem este mundo caduco no qual vivemos, mesmo que seja o mundo contido há dois metros de você, mas tudo que estiver nesse raio de alcance poderá conhecer Cristo; a boa, agradável e perfeita vontade de Deus; ser mudado e propagar também a verdade transformadora que é Jesus Cristo.
Pastoral do mês de junho.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A ausência de presentes pode ser o melhor modo de presentear

Por Rachel Vidal

“Essa vida moderna não tem nada de artesanal. Tudo é feito às pressas. Antes, a vida demorava para acontecer. A confecção de um vestido cumpria passos de um ritual. A procura do modelo, a compra do tecido, os aviamentos, a escolha da costureira, a negociação. Depois, a primeira prova, a segunda, e, finalmente, o vestido pronto. Hoje não. Olha na vitrine e leva. Não há espaço para a espera que nos permite ocupar a mente. Os sabores não demoram em nós. O prazer da roupa nova é reduzido drasticamente ao momento da compra e ao primeiro uso. Antes, o prazer de procurar os detalhes. Deleite prolongado trabalhando a alma, tal qual a tesoura o tecido. A costura, os bordados, os reparos. O todo constituído de partes que ensinavam saborear o período das esperas.” (Fábio de Melo; Mulheres de aço e de flores; p. 45)

De modo simples e suave essa poética e riquíssima narrativa descreve mudanças de hábitos fomentadas pelas reconfigurações da vida em sociedade, dadas as mudanças econômicas, políticas e organizacionais da atualidade. Certamente essas alterações trouxeram uma série de ganhos, sobretudo se comparadas à sociedade aristocrática que nos precedeu, na qual apenas uma minoria podia se dar ao luxo de alguns confortos que hoje estão generalizados. Entretanto, é perceptível a mecanização que muitas pessoas têm sofrido e suas rotinas tendem a construir um sistema com bloqueio próprio: trabalho – consumo – trabalho, encurralando-se desejos. Tudo ocorre como se os indivíduos não vislumbrassem nada para dar sentido à vida cotidiana; compram-se signos, o que os produtos representam: felicidade, poder, prestígio, identificação com ídolos... Nesse contexto, para muitos somos os que temos; se não temos, não somos.

A não percepção de entrelinhas é um privilégio contemporâneo? Se Jesus tivesse optado por transformar as pedras do deserto em pães, Ele teria sido crucificado ou a humanidade teria seguido os passos d’Ele? Ela temeria o momento em que o Filho de Deus porventura a privasse de comer e por isso seria obediente, regida pelo milagre, pelo mistério e pela autoridade? Ou chegaria o momento em que as pessoas se cansariam de ter apenas o pão? É incontestável que o sustento garante êxito: o homem inclina-se diante de quem o dá, porque é coisa incontestada...
O Papai Noel trás presentes no Natal, o Coelhinho da Páscoa ovos de chocolate e você, caso não presenteie seu filho em uma data comercialmente festiva, estará faltando com amor a ele? Os presentes regem as suas relações familiares? Seu filho o valoriza pelo que você representa para ele ou unicamente pelo que você proporciona a ele? Pois Jesus apresentou-se a nós de mãos vazias, fazendo uso de uma liberdade compreendida por poucos e vivenciada por um número ainda menor de pessoas.

Como Ele nos disse: “Nem só de pão viverá o homem”! "(...) o segredo da existência humana consiste, não somente em viver, mas também em encontrar um motivo para viver.” (Fiodor Dostoievski; O grande inquisidor; p.9)”.
Pastoral do mês de abril